1. A SINA DE TODO PÓS-GRADUANDO?
A pessoa em casa, de madrugada, com dezenas de livros e papéis espalhados por todos os lados, sentada na frente do computador por horas e dias a fio, com a missão de concluir o tal do artigo científico para entregar à orientadora. Já na quarta prorrogação de prazo e sob ameaça de um ultimato – “se não mandar até amanhã, será jubilada”.
Às quatro da madruga, com as costas em frangalhos, a vista embaçada e a bunda quadrada, levanta para jogar água no rosto e passar mais uma xícara de café, afinal, só faltam as Considerações Finais.
Ah, as tais das “Considerações Finais”!!! Depois de vinte e tantas páginas a gente conclui o quê???
Ah, as tais das “Considerações Finais”!!! Depois de vinte e tantas páginas a gente conclui o quê???
Eita perguntinha difícil.
Não sabia se rezava pedindo inspiração divina ou uma massagem...
E lá se vão... 5 horas... 6 horas... começa a amanhecer e quando a pessoa pensa que finalmente acabou e vai poder descansar, lembra que ainda tem que ajustar as citações e referências às temidas regras da ABNT.
Abduzida nessa tarefa hercúlea, que muitos consideram como o suprassumo da penitência, quando finalmente se dá conta de que ainda existe um mundo ao redor, o dia já amanhece.
Lá se foi mais uma noite virada, mas terminou!
Artigo enviado por e-mail e agora é só aguardar a “hora da verdade” – o momento de encontrar com a orientadora e receber o veredito sobre o documento. Esperando que o esforço leve à concordância com a submissão do artigo, condição sine qua non para a qualificação do doutorado.
Algum tempo depois chega a famigerada hora.
Tensão, ansiedade e suspense no ar!
Os colegas tentam acalmar com aquele papinho de que todo mundo passa por isso... Mas alguns vão de antemão desejando pêsames.
A cara da orientadora não é nada amigável e ela entrega o documento sem dizer uma palavra. Sentindo o peso do mundo sobre si – afinal os prazos estão acabando e sua pós-graduação depende disso – as mãos que recebem os papéis estão trêmulas.
Uma breve folheada faz engolir em seco!
Páginas inteiras rabiscadas e tantos pontos de interrogação e NÃOs, que a pessoa se pergunta se algo do que foi escrito prestou.
Alguém poderia pensar que é excesso de drama considerar que o texto "foi destruído” pelos comentários do orientador. Mas só diria isso quem não viu o documento – que infelizmente não guardei, pois seria um registro precioso hoje em dia.
De fato, não havia uma única linha sem rabiscos, correções e comentários, por vezes bem duros. Fiquei totalmente sem chão e sem saber o que pensar.
A única coisa evidente é que o trabalho estava uma m...
Angustiada, virava as páginas apressadamente, na esperança de que alguma estivesse melhor, até chegar nas famigeradas Consideração Finais.
"Aquelas", escritas às quatro da matina...
E que surpreendentemente não apresentavam nenhuma correção, apenas um singelo comentário ao pé da página, ilegível para mim.
Sim, minha orientadora segue a linha old school, revisa os textos manualmente. E entender a sua letra demanda um certo know how.
Mas com a ajuda de uma colega mais experiente deciframos a mensagem.
Mas com a ajuda de uma colega mais experiente deciframos a mensagem.
“PIROU? EU HEIN!!!”
Caracoles!!! Me senti pior do que "a mosca do cocô do cavalo do bandido".
Diante de circunstâncias como essa, parece haver somente duas alternativas.
Chutar o pau da barraca e desistir.
Ou espairecer e ser confortada por amigos e familiares com comentários de “calma, você sobrevive, vai achar uma solução”.
Mas esses esforços para nos alentar raramente funcionam em tal momento desolador.
Mas esses esforços para nos alentar raramente funcionam em tal momento desolador.
Se em uma situação dessas a gente conseguisse pensar somente que o nosso texto ainda não está ideal, que é um processo de construção e coisa e tal, seria ótimo.
O problema é que, nessas horas, comumente a gente pensa que "nós não somos bons o suficiente"!
O problema é que, nessas horas, comumente a gente pensa que "nós não somos bons o suficiente"!
A autoestima vai lá no pé e achamos que é uma questão particular, alguma incapacidade ou deficiência pessoal. Afinal, se tantos conseguem, por que não eu?
Mas basta conversar um pouquinho com outros colegas de pós para ver que não é bem assim...
Você se identifica com essa história ou parte dela?
Ela foi a minha na primeira fase do meu doutorado.
E descobri que, ainda que com alguma variação de roteiro e cenário, ela também foi a de muitos colegas de pós-graduação.
E que ainda é a de muita gente que envereda por essa senda acadêmica, repleta de meandros e percalços.
E que ainda é a de muita gente que envereda por essa senda acadêmica, repleta de meandros e percalços.
Há quem pense que fazer uma pós seja como tirar umas longas férias, apenas estudar e ter tempo para fazer um monte de coisas que na correria da vida profissional não eram possíveis e coisa e tal.
Mas só quem vivenciou o processo sabe que "o buraco é mais embaixo" e que essas expectativas frequentemente se revelam uma doce ilusão.
Mas só quem vivenciou o processo sabe que "o buraco é mais embaixo" e que essas expectativas frequentemente se revelam uma doce ilusão.
Não se pode deixar de considerar que a gente entra nesse mundo por escolha. Nem negar a importância das estratégias de divulgação acadêmica.
Afinal, de que adianta dedicar anos a fio a estudar um assunto e investir dinheiro público em pesquisas se o conhecimento gerado a partir delas não se tornar acessível?
Afinal, de que adianta dedicar anos a fio a estudar um assunto e investir dinheiro público em pesquisas se o conhecimento gerado a partir delas não se tornar acessível?
Só que novas regras de avaliação dos programas de pós-graduação têm levado muitos cursos a considerar a publicação de artigos científicos em revistas qualificadas como uma obrigatoriedade dos alunos para cumprir os ritos acadêmicos.
Demanda não raro acompanhada de ameaças de desqualificação ou descredenciamento da pós no caso do não cumprimento dos prazos.
Um processo que nem sempre vem sendo acompanhado de um esforço eficiente na adequada qualificação, tanto dos alunos como dos professores, para dar conta dessa tarefa, gerando diversos problemas.
Muitos pós-graduandos não conseguem superar esses desafios – se abatem, perdem o estímulo e acabam desistindo.
Outros são acometidos por distúrbios emocionais e psicológicos. Algo que apenas recentemente começou a ser divulgado e debatido com a seriedade necessária nas universidades, evidenciando índices assustadores de problemas de saúde mental como estresse, ansiedade, depressão, síndrome do pânico e até suicídios [1].
Há orientadores com perfil mais light, não tão duros nas suas revisões e cujas correções não são tão detalhistas. Mas isso traz suas desvantagens. E infelizmente muito artigos seguem para submissão nas revistas sem a devida qualidade e maturidade textual. E vão ser sumariamente rejeitados pelos editores ou pareceristas, que não costumam ter muita compaixão.
E como a avaliação dos artigos em periódicos qualificados demanda um certo tempo, o resultado negativo pode comprometer os prazos para qualificação ou defesa na pós-graduação.
Por isso – entre outras coisas –, sou muito grata por ter contato com uma orientadora "linha dura" na minha trajetória acadêmica.
O que no final das contas me faz estudar muito o assunto, me fortaleceu emocionalmente e academicamente e me instigou a buscar a excelência na escrita.
Algo que se refletiu diretamente na qualidade final do meu trabalho de doutorado, concluído com sucesso e agraciado com a conquista de alguns prêmios.
Algo que se refletiu diretamente na qualidade final do meu trabalho de doutorado, concluído com sucesso e agraciado com a conquista de alguns prêmios.
Não apenas sobrevivi à pós-graduação, como encontrei genuína satisfação em viver essa preciosa etapa da minha vida.
No final desse percurso, recebi convites para ser editora de algumas revistas científicas e parecerista de outras. Atividades a que venho me dedicando desde então e que agregam mais experiências significativas nessa jornada de aprendizados sobre escrita acadêmica e publicação de artigos científicos.
Viver essa transformação foi um verdadeiro rito de passagem.
Um processo difícil e tortuoso, mas muito rico e inspirador.
Um processo difícil e tortuoso, mas muito rico e inspirador.
Quer descobrir como eu virei esse jogo?
Continue acompanhando aqui no blog os próximos capítulos dessa saga.
E divulgue também para colegas que estão vivenciando a senda de venturas e desventuras de cursar uma pós-graduação.
Pois como bem lembrou minha querida tia e jornalista Monica Pinto ao revisar essa introdução, “quem não sabe brincar, não desce pro Play” (um ditado tipicamente carioca).
Pois como bem lembrou minha querida tia e jornalista Monica Pinto ao revisar essa introdução, “quem não sabe brincar, não desce pro Play” (um ditado tipicamente carioca).
O trabalho é árduo, ninguém se engane!
Mas nem por isso ele precisa ser chato ou sacrificante.
Vou publicar aqui alguns textos instrutivos sobre diversos aspectos que fazem parte do desafio de escrever um artigo científico, desde a sua concepção até a publicação. Refletindo não apenas sobre a construção da estrutura do texto, mas também sobre os bastidores da pesquisa.
Ainda que esse trabalho seja direcionado para o público que está cursando uma pós-graduação, acredito que ele possa ser útil a todos que estão começando a navegar pelo universo acadêmico.
E que desejam conhecer um pouco mais sobre o processo de escrita e editoração de um artigo científico.
Meu objetivo é compartilhar minha trajetória de aprendizados e ajudar outras pessoas a experienciar a pesquisa acadêmica como ela realmente deveria ser – uma grande aventura!
Seja bem vindo
Érika Fernandes-Pinto
Brasília, 30/03/2020
Para mais informações e contato: whatssap (61)981041130 e e-mail artigosoutliers@gmail.com
Acompanhe também nosso perfil no Instagram @artigosoutliers para dicas mais objetivas sobre escrita de artigos.
Referências:
