2. ESCREVER É PRECISO, MAS COMO ESCREVER NÃO É TÃO PRECISO
Ainda que existam diversos meios para a divulgação da produção do conhecimento acadêmico – como livros e capítulos de livros, teses e dissertações, trabalhos em anais de congresso e outros – é fato que a publicação de artigos científicos é a forma que tem recebido mais atenção nos últimos tempos.
Esse é um fenômeno relativamente recente e crescente, que vem ganhando proeminência devido a alguns fatores.
Artigos publicados em periódicos indexados e revisados por pares (peer review) tornaram-se, em poucas décadas, a base da comunicação científica por excelência e o cerne da avaliação da produtividade e do desempenho acadêmico. Tanto de pesquisadores individualmente como para coletivos – sejam eles grupos de pesquisa, programas de pós-graduação, departamentos, universidades, estados e até países.
São centrais nos processos de tomada de decisão para progressão de carreira, acesso a recursos de pesquisa, aprovação de projetos, destinação de bolsas de estudo e avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação. Dessa forma, podemos afirmar que não dá para ser pesquisador hoje em dia sem se ocupar com isso.
São centrais nos processos de tomada de decisão para progressão de carreira, acesso a recursos de pesquisa, aprovação de projetos, destinação de bolsas de estudo e avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação. Dessa forma, podemos afirmar que não dá para ser pesquisador hoje em dia sem se ocupar com isso.
Os artigos científicos apresentam uma série de vantagens com relação a outros tipos de publicação acadêmica. Tornam os resultados das pesquisas acessíveis a um público mais amplo, de qualquer parte do mundo, e dão perenidade aos documentos.
Proporcionam o registro das citações e o uso de diversas métricas para medir o impacto das publicações.
Proporcionam o registro das citações e o uso de diversas métricas para medir o impacto das publicações.
Apesar da sua inegável relevância, a produção de artigos também suscita discussões e polêmicas, e não são poucas as críticas a esse sistema.
Fala-se, por exemplo, dos impactos negativos de se privilegiar a quantidade de publicações em detrimento da qualidade da produção, o que vem gerando algo que está se tornando conhecido como salame science ou “ciência reduzida a fatias” – consequência de se recortar as pesquisas para gerar mais publicações.
Fala-se, por exemplo, dos impactos negativos de se privilegiar a quantidade de publicações em detrimento da qualidade da produção, o que vem gerando algo que está se tornando conhecido como salame science ou “ciência reduzida a fatias” – consequência de se recortar as pesquisas para gerar mais publicações.
A pressão institucional em alguns meios com uma exigência crescente por produtivismo levou também à criação do jargão publish or perish – publique ou pereça!!!
No contexto da pós-graduações, as regras dos programas vêm mudando em função dessas tendências e novas exigências das agências avaliadoras e financiadoras.
Além de elaborar uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado, os alunos também têm que publicar artigos em periódicos científicos, muitas vezes como condicionante para as qualificações e defesas.
Além de elaborar uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado, os alunos também têm que publicar artigos em periódicos científicos, muitas vezes como condicionante para as qualificações e defesas.
A escrita de artigos científicos difere substancialmente da escrita de outros textos acadêmicos. E ainda que eu tenha vivenciado pessoalmente as dificuldades de transposição de um estilo para outro durante a minha pós-graduação, não deixei de me surpreender com a baixa qualidade dos artigos submetidos para publicação quando passei a atuar como editora e parecerista de revistas indexadas, o que resulta em uma alta taxa de rejeição.
Se escrever artigos científicos é preciso, por que não somos preparados adequadamente para isso?
Na nossa formação escolar nos acostumamos a escrever redações como única forma de construção de textos autorais.
Não por acaso essa é a prova que gera maior medo e ansiedade nos vestibulandos.
Escrevemos os textos em um contexto específico, entregamos a um avaliador que dará uma nota a ele e pronto, acabou.
A grande maioria dos que passaram pelo sistema de educação convencional não foi treinado para um processo de construção textual que envolve escrita e reescrita.
Não por acaso essa é a prova que gera maior medo e ansiedade nos vestibulandos.
Escrevemos os textos em um contexto específico, entregamos a um avaliador que dará uma nota a ele e pronto, acabou.
A grande maioria dos que passaram pelo sistema de educação convencional não foi treinado para um processo de construção textual que envolve escrita e reescrita.
Além disso, como abordado anteriormente, até alguns anos atrás, não se exigia que os alunos de pós-graduação publicassem artigos como condição para defesa das teses e dissertações.
Essa era uma recomendação de algo que deveria ser feito a posteriori da conclusão do texto acadêmico.
A publicação em periódicos científicos tradicionalmente se constituía em uma prática mais comum nas ciências naturais do que nas ciências humanas e sociais, áreas em que a publicação de livros e capítulos de livro supera a de artigos.
Essa era uma recomendação de algo que deveria ser feito a posteriori da conclusão do texto acadêmico.
A publicação em periódicos científicos tradicionalmente se constituía em uma prática mais comum nas ciências naturais do que nas ciências humanas e sociais, áreas em que a publicação de livros e capítulos de livro supera a de artigos.
No meu programa de pós-graduação, por exemplo, a submissão de artigos em revistas indexadas com uma avaliação mínima no Qualis da Capes se tornou uma obrigatoriedade somente em 2012.
Esse foi o ano em que eu iniciei o doutorado, de forma que a minha turma foi a primeira a lidar com essa exigência, referendada com a assinatura de um termo de compromisso do aluno com o programa de pós.
Esse foi o ano em que eu iniciei o doutorado, de forma que a minha turma foi a primeira a lidar com essa exigência, referendada com a assinatura de um termo de compromisso do aluno com o programa de pós.
Nesse contexto, encontrar dificuldades para escrever e publicar um artigo científico não é algo pessoal, uma incapacidade ou um problema específico de um pós-graduando, e sim uma questão estrutural do sistema em que fomos formados.
Não somos os únicos a passar por isso, mas o isolamento e a solidão característicos do processo de elaboração de uma tese ou dissertação pode nos faz pensar que sim.
Nas reuniões de grupos de pesquisa muitas vezes somos apresentados somente às conquistas dos colegas, raramente compartilhando os percalços, expostos, quando muito, em privacidade com o orientador.
Nas reuniões de grupos de pesquisa muitas vezes somos apresentados somente às conquistas dos colegas, raramente compartilhando os percalços, expostos, quando muito, em privacidade com o orientador.
Como ressalta um editorial da revista Nature que discute o tema do formato das teses, em meio a esse processo os estudantes "estão em maus lençóis", "perdidos em informação, oprimidos pela literatura, bloqueados para escrever a próxima frase, seduzidos pela procrastinação e se perguntando por qual motivo decidiram se submeter a esta tortura” [1].
No frigir dos ovos, entre os prós e os contras, todos nós que enveredamos por uma carreira acadêmica – seja por uma fase da vida, seja a longo prazo – temos que encarar o desafio da escrita acadêmica e conseguir publicar artigos de qualidade.
Melhor então aprender a fazer isso da melhor forma e com a maior brevidade possível.
E se nossas universidades e faculdades não dão conta de nos preparar para essa tarefa imprescindível, cabe a nós viabilizar uma "autoformação".
Melhor então aprender a fazer isso da melhor forma e com a maior brevidade possível.
E se nossas universidades e faculdades não dão conta de nos preparar para essa tarefa imprescindível, cabe a nós viabilizar uma "autoformação".
Mas como fazer isso?
Se escrever é preciso, aprender a escrever não é tão preciso.
Eu, particularmente, dei muitas voltas até encontrar o caminho das pedras do que realmente me ajudou.
Eu, particularmente, dei muitas voltas até encontrar o caminho das pedras do que realmente me ajudou.
Compartilhar esses aprendizados é uma ideia que cultivo há algum tempo. Mas foi um fato vivenciado recentemente como editora que me motivou a efetivamente começar.
Quer saber qual foi a gota d'água?
Quer saber qual foi a gota d'água?
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Érika Fernandes Pinto
Brasília, 01/04/2020
Fontes:
[1] The past, present and future of the PhD thesis. Nature. 2016, vol. 535, nº 7610, pp. 7-7. (De acordo com citação em: https://blog.scielo.org/blog/2016/08/24/teses-e-dissertacoes-pros-e-contras-dos-formatos-tradicional-e-alternativo/#.XoT66C3OqCR)
