3. A PÓS-GRADUAÇÃO COMO UMA JORNADA DE AUTOTRANSFORMAÇÃO
Conforme contei anteriormente, minha primeira experiência de receber meu texto tão árdua e exaustivamente trabalhado por meses a fio todo “detonado” pela revisão da minha orientadora foi uma experiência um tanto traumática.
O alento de saber que outros orientandos viveram a mesma experiência ou algo parecido ajudou a suavizar o impacto, mas não resolvia nada, pois eu ainda precisava escrever um artigo para submeter para publicação em uma boa revista indexada para conseguir me qualificar para o doutorado.
E os prazos corriam implacavelmente!
E os prazos corriam implacavelmente!
Minha turma de doutorado foi a primeira que teve a submissão de um artigo para publicação como condição para prestar o exame de qualificação, o que ocorre por volta do meio do curso.
E para a defesa final da tese, era necessário não apenas que esse primeiro artigo tivesse sido publicado, como ter submetido um segundo, nos mesmos moldes.
E para a defesa final da tese, era necessário não apenas que esse primeiro artigo tivesse sido publicado, como ter submetido um segundo, nos mesmos moldes.
Meus colegas veteranos não tinham passado por essa pressão, pois até 2012 publicar artigos referentes ao conteúdo da tese era algo que se recomendava fazer depois da defesa. Assim, não encontrei ninguém, num primeiro momento, que pudesse ajudar a trilhar o caminho das pedras...
Pesquisando na internet sobre o tema, descobri dezenas de sites de empresas que se propõem a elaborar artigo científico, TCC e até teses sobre qualquer área de conhecimento.
Me surpreendi com o fato de que era mais fácil arranjar alguém que fizesse o trabalho pela gente do que alguém que ajudasse a gente a fazer o nosso trabalho!!!
Essa, definitivamente, não era uma estratégia que eu estava disposta a apelar e que considero no mínimo antiética.
Se eu ia chegar lá, seria pelas minhas próprias mãos... ainda que alguma ajudinha e mapas para a jornada fossem úteis.
Me surpreendi com o fato de que era mais fácil arranjar alguém que fizesse o trabalho pela gente do que alguém que ajudasse a gente a fazer o nosso trabalho!!!
Essa, definitivamente, não era uma estratégia que eu estava disposta a apelar e que considero no mínimo antiética.
Se eu ia chegar lá, seria pelas minhas próprias mãos... ainda que alguma ajudinha e mapas para a jornada fossem úteis.
Quando eu estava com o prazo para a qualificação no limite e mais ou menos na nona versão do meu primeiro artigo – que voltou com o comentário geral da Marta (nesse caso, positivo, acreditem!) de que ”o conteúdo está bom, mas parece um relatório técnico e precisa ser integralmente reescrito para se ajustar à linguagem acadêmica” –, tive um acidente.
Os detalhes dessa história não vêm ao caso agora, mas fiquei vários meses em recuperação. Impossibilitada de exercer algumas atividades básicas, entre elas de trabalhar no computador, tive que trancar o doutorado.
Depois de quase um ano afastada, ou eu retomava o curso de pós ou perdia os anos já transcorridos. Eu pensei seriamente na possibilidade de desistir, mas declinei quando descobri que, neste caso, teria que restituir aos cofres públicos o recurso investido na minha formação. Uma opção, como vocês podem imaginar, não muito viável nem agradável.
Com “a corda no pescoço” e os prazos comprometidos, resolvi retomar a pós. Para tanto, precisava no mínimo apresentar uma nova versão bem melhorada do meu famigerado primeiro artigo, ainda pendente da aprovação da minha orientadora.
A missão parecia impossível, mas nada como o desespero de última hora para ajudar a ter a tão necessária determinação para cumprir certas tarefas.
Agarrei o touro pelo chifre e encarnei que eu ia aprender de qualquer jeito como é que se escrevia um raio de um artigo científico decente.
Se esse era o sistema da pós-graduação e eu não podia modificá-lo, iria descobrir como navegar por ele e chegar ao meu destino.
Agarrei o touro pelo chifre e encarnei que eu ia aprender de qualquer jeito como é que se escrevia um raio de um artigo científico decente.
Se esse era o sistema da pós-graduação e eu não podia modificá-lo, iria descobrir como navegar por ele e chegar ao meu destino.
Conversei com pessoas que tinham mais experiência, li tudo o que encontrei na internet sobre o tema, comprei livros, fiz cursos online, mas nada ajudou significativamente. Uma boa parte dos materiais apenas “chovia no molhado”, reafirmando aquilo que eu já sabia.
Até que minha mãe, que também estava fazendo doutorado na mesma época, comentou de um workshop presencial em São Paulo, com um bam-bam-bam na publicação de artigos. Era específico para alunos da USP e da área médica, mas ela deu um jeito de me infiltrar.
Apesar de ter sido um evento de um único dia, foi ótimo e finalmente acendeu uma luz no fim do túnel, me mostrando algumas perspectivas sobre por onde seguir a partir do ponto em que eu me encontrava.
O pesquisador que ministrou o workshop morava nos Estados Unidos e oferecia alguns serviços de apoio a pós-graduandos, como tradução qualificada, análises estatísticas e um curso online sobre a escrita de artigos científicos.
Diferente de outros cursos que eu já tinha feito, esse era mais longo e apresentava como diferencial um acompanhamento personalizado do aluno, com feedbacks sobre a sua produção. Custava relativamente caro, mas achei que valia a pena.
Diferente de outros cursos que eu já tinha feito, esse era mais longo e apresentava como diferencial um acompanhamento personalizado do aluno, com feedbacks sobre a sua produção. Custava relativamente caro, mas achei que valia a pena.
De fato, essa mentoria (que infelizmente já não está mais disponível) foi de grande ajuda e me auxiliou a aprender o caminho das pedras da escrita científica e a qualificar o meu trabalho.
Por uma série de motivos que apenas com o tempo comecei a compreender, esse acidente representou um grande divisor de águas na minha trajetória, não só acadêmica, mas também pessoal.
Ainda que o processo de recuperação tenha sido muito difícil, me forçou a me reinventar – física, mental, emocional e espiritualmente. Além de rever muitas questões do meu passado, fui aprendendo a focar no presente e a tomar “as rédeas” da construção do futuro que eu queria para a minha vida.
Ainda que o processo de recuperação tenha sido muito difícil, me forçou a me reinventar – física, mental, emocional e espiritualmente. Além de rever muitas questões do meu passado, fui aprendendo a focar no presente e a tomar “as rédeas” da construção do futuro que eu queria para a minha vida.
Aos poucos, com ajuda de profissionais competentes e fazendo a minha parte com dedicação e disciplina, fui recuperando a minha saúde, sanidade e autoestima.
Retomei o doutorado, fui aprovada na qualificação e entrei em um ritmo bastante frutífero de produção.
Finalmente submeti o meu primeiro artigo para publicação, aprovado pela minha orientadora, mas não sem antes passar por mais algumas “revisões obsessivas”, como ela gosta de falar.
Em um dado momento, me surpreendi ao perceber que acordava entusiasmada para dar sequência ao trabalho de pesquisa e escrita, aguardando animadamente a nova revisão de texto da minha orientadora e curtindo cada passo dessa jornada.
Aquilo que fora antes fonte de tanta tensão, angústias e sofrimento foi virando fonte de prazer, alegria e novas descobertas, resultando, enfim, em uma grata satisfação.
Retomei o doutorado, fui aprovada na qualificação e entrei em um ritmo bastante frutífero de produção.
Finalmente submeti o meu primeiro artigo para publicação, aprovado pela minha orientadora, mas não sem antes passar por mais algumas “revisões obsessivas”, como ela gosta de falar.
Em um dado momento, me surpreendi ao perceber que acordava entusiasmada para dar sequência ao trabalho de pesquisa e escrita, aguardando animadamente a nova revisão de texto da minha orientadora e curtindo cada passo dessa jornada.
Aquilo que fora antes fonte de tanta tensão, angústias e sofrimento foi virando fonte de prazer, alegria e novas descobertas, resultando, enfim, em uma grata satisfação.
Escrevi outros textos acadêmicos e artigos com muito mais fluidez, participei de vários eventos nacionais e internacionais, viajei meio mundo e avancei com a pesquisa. Mesmo com o tempo reduzido pelos percalços do caminho, terminei a minha tese dentro dos prazos e fui aprovada Doutora com sucesso!
Minha expectativa, que inicialmente era a de meramente conseguir concluir essa jornada, acabou tendo um retorno e uma repercussão bem além do esperado.
Meu trabalho foi um dos vencedores do Prêmio Darell Posey da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia, em 2016; foi considerado a melhor tese de doutorado do biênio 2016-2017 pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (ANPPAS); e recebeu uma menção honrosa na área da Psicologia no Prêmio de Teses da CAPES de 2018.
Meu trabalho foi um dos vencedores do Prêmio Darell Posey da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia, em 2016; foi considerado a melhor tese de doutorado do biênio 2016-2017 pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (ANPPAS); e recebeu uma menção honrosa na área da Psicologia no Prêmio de Teses da CAPES de 2018.
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| Com diploma do Prêmio Teses da CAPES 2018 |
Meu primeiro artigo, intitulado Sítios Naturais Sagrados: valores ancestrais e novos desafios para as políticas de proteção da natureza foi publicado na Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal do Paraná, em 2016 [1].
O pessoal da revista gostou tanto dele que me convidou para ser Editora Adjunta dessa que é uma das mais bem-conceituadas publicações nacionais de caráter interdisciplinar sobre a temática da relação sociedade e natureza, onde atuo desde então [2].
Me tornei também parecerista de outros periódicos científicos, recebo convites frequentes para fazer palestras em eventos e, ainda que tenha retomado as minhas funções na gestão pública, tomei gosto pela coisa e venho mantendo uma carreira acadêmica em paralelo.
Foi inspirada por essas experiências que criei a Artigos Outliers - um canal de divulgação de dicas e recomendações para a escrita de artigos científicos, oferecendo também palestras, cursos, oficinas e serviços de assessoria personalizada para aqueles que desejam se aprofundar na temática.
A escrita e a publicação de artigos em periódicos indexados se tornaram a forma de comunicação por excelência na ciência e são eles que vão gerar o registro das nossas ideias e descobertas e tornar nossa produção acessível e propagável para um público mais amplo, determinando o impacto que exerceremos nas nossas áreas de atuação.
Para isso, entretanto, não basta escrever e publicar, temos que despertar o interesse e ser lidos!
O trabalho é árduo? Sim!
Mas podemos aprender a brincar com ele.
Essa foi, em essência, a grande transformação que passei na jornada do meu doutorado.
Com paciência, ferramentas adequadas e muita determinação, você também pode chegar lá. E se surpreender ao longo dessa trajetória, descobrindo como esse processo pode se tornar também deveras divertido e gratificante.
Mas podemos aprender a brincar com ele.
Essa foi, em essência, a grande transformação que passei na jornada do meu doutorado.
Com paciência, ferramentas adequadas e muita determinação, você também pode chegar lá. E se surpreender ao longo dessa trajetória, descobrindo como esse processo pode se tornar também deveras divertido e gratificante.
E então, aceita o desafio?
Continue nos acompanhando aqui no blog e siga o perfil no Instagram @artigosoutliers para dicas objetivas sobre escrita científica.
Érika Fernandes Pinto
Brasília, 01/04/2020.
____________
[1] https://revistas.ufpr.br/made/article/view/47843
[2] https://revistas.ufpr.br/made
[1] https://revistas.ufpr.br/made/article/view/47843
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