4. A GOTA D'ÁGUA E O ENCONTRO DE UMA MISSÃO
Depois do doutorado, atuando como editora e parecerista de revistas indexadas, comecei a conhecer com mais propriedade os bastidores dos processos de avaliação e editoração científica.
Adoro esse trabalho e aprendo muito com ele, mas com o tempo, comecei a me sentir desconfortável no papel de “rejeitadora” de artigos, em um contexto em que pouquíssimos textos passam pelo crivo inicial da avaliação.
Na Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, por exemplo, mais de 90% dos artigos submetidos são recusados logo na triagem inicial feita pelos editores.
A qualidade da maioria dos textos submetidos é desalentadora e boa parte deles não pode sequer ser considerada como um artigo, pois não contém os elementos mínimos necessários para tal. A cada dia de trabalho nessa função, minha angústia crescia.
Até que me deparei com o caso de um pós-graduando cujo artigo ficou muitos meses em avaliação, por um tempo estendido devido a sucessivas desistências de pareceristas e também algumas dificuldades minhas.
O autor em questão enviou diversas mensagens perguntando sobre o andamento do processo, pois precisava de um aceite da revista para cumprir com as exigências da sua pós-graduação.
Eu, que já estive nessa situação, sei bem a angústia que ele devia estar vivendo...
E foi com muita dor no coração que, tendo finalmente recebidos dois pareceres de avaliação, tive que lhe encaminhar uma mensagem de rejeição do artigo. Fiquei verdadeiramente mal com isso.
Compadecida, busquei – em vão – palavras que pudessem incentivá-lo a não esmorecer diante dessa tarefa. Mas para mim, essa foi a gota d'água!
Nas pós-graduações parte-se muitas vezes do pressuposto de que a pessoa que foi aprovada em uma seleção de mestrado ou doutorado já sabe escrever cientificamente. Mas a realidade mostra que muitas, de fato, não sabem.
Os programas, então, não se dedicam a formar seus alunos nessas habilidades. E os alunos, por sua vez, não se sentem acolhidos para admitir suas debilidades.
Os orientadores indicam o que deve ser feito, mas raramente como fazer. Aulas de metodologia científica com frequência focam nas técnicas para coleta de dados, estrutura de um artigo e elementos de formatação, mas não abordam a escrita em si.
Cada profissional adota uma sistemática diferente de organização de estudos e produção acadêmica, e quando a gente pergunta algo a eles em busca de um referencial, recebe orientações dúbias e até contraditórias. E a incerteza se perpetua...
Há pessoas que, desesperadas diante de uma situação como essa, partem para a “contratação de serviços de terceiros” – uma prática que vem sendo chamada de “comércio de autoria” e que infelizmente tem se popularizado, não só no Brasil, mas em diversos países.
Esse é um assunto sério e com graves consequências para a ciência e para a formação de pesquisadores e profissionais.
Se essa prática é apenas imoral ou também ilegal ainda é objeto de controvérsias. Alguns alegam que não há violação de direitos autorais, uma vez que o verdadeiro autor cedeu livremente a obra a outrem. Mas vários juristas argumentam que se trata de prática de falsidade ideológica, pois permite que a pessoa adquira “vantagens não merecidas” [1].
Fazer uso de um artifício desse tipo é muito diferente de buscar auxílio profissional e qualificado que facilite o verdadeiro aprendizado.
Esse foi o caminho que eu segui na minha trajetória, fazendo cursos de escrita acadêmica e contratando um serviço de mentoria que muito me ajudou.
Nesse caso, o profissional não faz o trabalho pela outra pessoa, mas dá dicas, sugestões e recomendações, avalia o que é produzido, ajuda a desenvolver um estilo próprio de escrita e a ter sucesso nas publicações que são fruto do nosso esforço e, portanto, nossas conquistas.
Como venho confidenciando a vocês que estão acompanhando o blog, a minha passagem pelo doutorado e a elaboração da minha tese, entre 2012 e 2017, consistiram em uma verdadeira saga, digna de um filme de aventura com pitadas de tragicomédia.
Entre aprender a navegar em meio aos meandros e melindres da pós-graduação, superar os percalços que surgiram no caminho, sobreviver a um quase final trágico e sair desse processo vitoriosa e com um trabalho que vem sendo bem reconhecido na academia e fora dela, foram muitos os aprendizados e há algum tempo cultivo a ideia de compartilhá-los.
Essa foi uma proposta que surgiu inicialmente no grupo de pesquisa que estive vinculada durante a pós, buscando auxiliar os novos egressos nesse percurso.
Consiste também em uma singela forma de retribuir a dedicação da minha orientadora com a minha formação, em uma tentativa de facilitar o seu esforço de repetir dezenas de vezes as mesmas instruções a cada novo ciclo de orientação.
Foi inspirada por essas experiências que criei a Artigos Outliers como um canal de orientação e divulgação de dicas e recomendações para a escrita de artigos científicos.
Esse nome foi inspirado no livro de Malcolm Gladwell, traduzido para o português como "Fora de Série" – termo que remete a algo que se destaca do padrão convencional.
Utilizando as ferramentas que tenho em mãos e fazendo aquilo que pode ser feito nesse momento um tanto dramático que vivemos enquanto sociedade submetida a uma pandemia, lancei esse projeto inicialmente com o blog e um perfil no Instagram – @artigosoutliers.
Ambos têm o mesmo propósito, mas fazem uso de linguagens diferentes. Os textos do blog são mais longos e as recomendações de escrita vêm entremeadas com histórias dos bastidores da minha experiência com a pesquisa, algo quase confidencial.
E no Instagram, além de compartilhar dicas objetivas sobre a temática, espero criar um canal de maior interação com o público interessado.
Também disponibilizo serviços de palestras, oficinas e cursos presenciais ou virtuais, além de assessoria personalizada na escrita acadêmica para aqueles que desejam se aprofundar nesse campo.
Porque não basta compreender as recomendações, temos que exercitar como aplicá-las na prática. Esse é verdadeiramente o grande desafio.
Trabalho prioritariamente com textos escritos em português, de áreas de interface com a temática ambiente e sociedade. Não faço revisão gramatical/ortográfica nem serviço de formatação – há inúmeros profissionais disponíveis no mercado para isso.
Foco minhas análises em recomendações com relação à estruturação do texto e ao encadeamento das ideias, à consistência das argumentações, ao estilo e à clareza da escrita, bem como orientações sobre escolha de periódicos e o processo de submissão, maximizando as possibilidades de aceite de um artigo para publicação.
Caso tenha interesse nesse serviço, convido a uma experiência gratuita, com o compromisso apenas de me dar um feedbak posterior.
Diferente de outros profissionais que estão há anos no mercado de cursos e publicação de livros sobre redação acadêmica, minha produção científica é relativamente modesta.
Em parte, porque trabalho na gestão pública e minha atuação na área acadêmica é conjugada a uma série de outras atividades. E por outro lado, porque nunca aceitei ser co-autora de artigos onde a minha participação foi apenas pontual ou de revisão.
Um dos aspectos que me qualifica para esse trabalho é ter estado nesse lugar recentemente e sentido na pele aquilo pelo que passa um pós-graduando sob o nível de exigência atual com relação à publicação de artigos.
Não só conheço a fundo suas angústias, dificuldades e inquietações, como aprendi, a duras penas, o caminho das pedras para chegar com sucesso até o final dessa jornada.
E o que produzi até o momento, fiz com ótima qualidade.
Diferentes pessoas escrevem artigos motivadas por diferentes interesses. Alguns são guiados pelos nobres ideais da ciência de contribuir com o avanço científico e tem isso como uma missão de vida, almejam alcançar notoriedade e se tornar referência nos seus campos de atuação. Outros querem apenas cumprir uma exigência para concluir uma formação e conseguir um diploma.
O que te motiva?
Ainda que todas as razões sejam válidas e tenham o seu lugar, na Artigos Outliers preza-se pela excelência na escrita e o trabalho está direcionado para aqueles que realmente buscam algo a mais do que apenas cumprir tabela.
Em um universo caracterizado pela baixa qualidade textual e pela incompreensão do que realmente seja um artigo científico, desejo ajudar aqueles que buscam produzir textos de valor, relevantes e instigantes, que gerem reais contribuições para as suas áreas temáticas e que sejam lidos e citados por outros pesquisadores.
Enfim, um trabalho do qual você possa se orgulhar!
Que tal, vamos embarcar juntos nessa jornada?
Esse material encontra-se dividido em três partes, além dessa apresentação.
A primeira trata da escolha do objeto de pesquisa e da estruturação do artigo científico, com os elementos necessários para uma adequada construção de cada um dos seus componentes.
A segunda discorre sobre o processo de submissão, avaliação e publicação de um artigo em periódicos especializados de boa qualidade.
A terceira traz recomendações sobre como navegar por esses mares revoltos da pós-graduação mantendo a saúde e a integridade física, mental e emocional. E chegar ao final dessa jornada tendo não apenas sobrevivido a ela, mas realmente apreciado o trajeto.
Antes de entrar nesse conteúdo propriamente dito, entretanto, vamos tratar de mais um assunto introdutório, a relação mais importante que você deve cultivar se quiser ter sucesso na sua pós-graduação – a com o seu orientador.
Desaperte os cintos e uma boa viagem
Érika Fernandes Pinto
Brasília, 10/04/2020
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**Para informações sobre a assessoria personalizada entre em contato: artigosoutliers@gmail.com
Referências:
[1] Accioly, 2002. Comércio de autoria: um sintoma da cultura pós-moderna. Disponível em: https://www.periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/resgate/article/view/8645583
