5. ORIENTADOR-ORIENTANDO: UMA RELAÇÃO TÃO DELICADA

Durante a pós-graduação, até chegar ao ponto de submeter um artigo para publicação e finalizar uma tese ou dissertação, há um longo caminho a ser percorrido. 
Uma caminhada em que dependemos basicamente de nós mesmos, mas na qual uma outra pessoa exerce um papel fundamental - o nosso orientador
Seja a sua participação nesse processo mais ativa ou passiva, no frigir dos ovos, o orientador é o principal avalista da qualidade do nosso trabalho durante uma pós-graduação. 
E não dá para avançar nesse processo sem essa figura chave. 

Por isso, é bom aprender a interagir e conviver bem com o seu! 

Essa relação não é só importante para o sucesso do pós-graduando, ela é o núcleo de sustentação dos programas de pós-graduação. 
Uma questão essencial, complexa e delicada de ser administrada, muitas vezes negligenciada pelos cursos. 
Ela é tão relevante que tem vários artigos científicos e até livros escritos sobre isso [1, 2]. Além de uma infinidade de textos na internet que tratam das dificuldades desse relacionamento crucial. 

A origem da palavra orientador vem do grego aconselhar e da raiz indoeuropeia pensar, significando, portanto, aconselhar o pensamento [1]. 
Essa deveria ser a essência da relação orientador- orientando. Não só ler seus manuscritos, mas ajudar no crescimento e amadurecimento do aluno enquanto pesquisador. 
Um bom orientador indica materiais de leitura e de estudo dirigido, monitora as atividades dos seus alunos na pós, envolve-os em atividades de ensino e extensão, amplia e complementa os seus aprendizados e inspira-os com a sua prática. 
Cuida não apenas da construção da capacidade cognitiva, mas também da emocional, encorajando o desenvolvimento de senso crítico e a auto-confiança do aluno, que se sente capaz de “dar conta do recado”. 
Mas da teoria à prática temos a vida como ela é!

Em alguns programas de pós escolhemos o nosso orientador, enquanto em outros ele é designado pela coordenação do curso, a partir de afinidades de linha de pesquisa e cotas de orientandos. 
Se o seu caso se enquadrar na primeira opção, não se baseie apenas na produção intelectual de um professor ou no seu desempenho como palestrante. 
Procure conversar com orientandos ou ex-orientandos da sua escolha em potencial. O estilo de um professor nos bastidores da vida acadêmica pode diferir significativamente da sua conduta no palco (#ficaadica).

Em outras situações, um orientador pode ser tão adorado por seus alunos que disputar uma vaga para ser orientando dele pode ser mais difícil do que passar na seleção do curso de pós-graduação, como foi meu caso no mestrado. 

Existem muitos tipos de orientadores e estilos de orientação. Alguns são mais camaradas, outros mais severos. 
Há aqueles mais presentes, que nos envolvem em atividades e encontros cotidianos; enquanto outros são mais distantes e conseguir uma hora para uma conversa de orientação pode ser uma dificuldade. 

Pesquisadores renomados e super gabaritados em termos de produção científica nem sempre são bons orientadores. Pode lhes faltar a humildade, a disposição e a paciência necessária para acompanhar a evolução gradual e não linear do orientando. 
Como li em um uma matéria sobre o assunto, você espera um “Senhor Miyagi” e encontra o “Darth Vader” [4]. 
Lidar com o ego exaltado de um “orientador-estrela”, “orientador ausente” e “orientador que não orienta” estão entre as principais queixas dos pós-graduandos nos fóruns sobre o tema [3, 4].
A péssima qualidade textual das submissões que a gente recebe nas revistas científicas, mesmo com co-autoria de professores renomados, faz acreditar que muitos realmente sequer leem o artigo do aluno antes de autorizar o envio para publicação.

Seja qual for o perfil do seu, essa relação estratégica em uma pós-graduação nem sempre é fácil... 

Os orientadores têm a difícil missão de garantir a produtividade acadêmica dos cursos de pós-graduação. 
Algo que, como vimos anteriormente, é vital para que esses cursos continuem existindo, recebam verbas de pesquisa e bolsas para estudantes. 
Assim, não espere somente compreensão de quem tem que prestar contas e se responsabilizar pela sua produção. 

Em meio a diversos trabalhos, cabe ao orientador não deixar que o aluno se perca nos devaneios da pesquisa. 
E não estamos falando de pouco trabalho. 
Minha orientadora do doutorado, por exemplo, chegou a ter mais de 20 orientandos num mesmo período, entre alunos de graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado. 
Estimando que cada um entregue um texto de 30 páginas por mês para ela ler – uma produção básica – pode-se ter uma ideia do volume mínimo de revisão que ela tinha a fazer cotidianamente. 
Fora as aulas, as bancas, as reuniões de departamento, os congressos, as pesquisas de campo, os estudos e tantas outras atividades que compõem a rotina de um professor universitário. 
Uma profissão nem sempre valorizada como deveria!

Além disso, a vida não se restringe a atividades profissionais, não é mesmo? Orientadores também são seres humanos. 
Têm família, amores e desamores, sonhos, interesses particulares, hobbies, enfrentam problemas de saúde e também passam por perdas e dificuldades. 
Assim, seja qual for o estilo do seu orientador, tente simplificar ao máximo a vida dele. 
E, consequentemente, também a sua. 

Algumas dicas para facilitar a relação orientando-orientador


Alinhe as expectativas, saiba o que esperar e o que não esperar do seu orientador.
Estabeleça cronogramas e pactue os compromissos de ambas as partes. 
Anote e organize as suas dúvidas, para quando se reunirem, ir direto ao ponto. 
Faça memória das reuniões e registre os encaminhamentos acordados. 
Date os textos que você entrega para ele (se não fizer isso por e-mail), bem como a data de devolução – acredite, pode ser muito útil.
Aproveite bem os encontros presenciais e cada oportunidade de contato para extrair o melhor dele – das reuniões individuais ou em grupo aos esbarrões pelo corredor ou uma companhia até o estacionamento. 
Use-o, no bom sentido, para tratar de questões relevantes, como correções de rota da pesquisa, e não meramente para prestação de contas. 

Cuidado com aqueles orientadores que te envolvem em dezenas de atividades e projetos. Em certa medida, isso é ótimo e faz parte da formação acadêmica. 
Mas em excesso, tira o foco da sua missão principal, que é elaborar sua própria tese ou dissertação. 
Saiba estabelecer seus limites!

Poupe-o das suas mazelas pessoais. Pois como diz minha amiga Cimone, também pesquisadora e professora, orientador não é pai, nem mãe, nem terapeuta. 
Seus colegas de pós e grupo de pesquisa podem ajudar no amparo emocional e no compartilhar de angústias, frustrações e ansiedades. 
Mas em alguns casos, recomenda-se mesmo ajuda profissional (#quemnunca?). Saiba reconhecer se isso for necessário e não hesite em procurar. 

Procure ajuda também se desconfiar que essa relação está seguindo por um curso meio estranho.
Essa pretensa “parceria” pode ser disfuncional de várias formas e não faltam nesse meio relatos de histórias bizarras de todos os tipos, de roubo de ideias a condutas abusivas e até mesmo assédio [3, 4]. 
Orientando não é escravo nem bajulador de orientador e não tem que lhe prestar serviços pessoais nem dar conta de tarefas que são sua obrigação.
Fazer uma cortesia e ajudar em uma tarefa ou outra, é plenamente aceitável, desde que venha da espontaneidade da relação amigável, e não como uma imposição.

Impor um tema de pesquisa ao aluno, obrigá-lo a colocá-lo como co-autor de uma produção da qual ele não participou ou forçar a barra para que você cite trabalhos dele no seu texto apenas para engordar as suas métricas acadêmicas também são condutas questionáveis [3].

Ainda que no passado situações envolvendo essas questões tenham sido comumente veladas e colocadas “embaixo do tapete”, acredito que todos nós temos a nossa cota de responsabilidade em não permitir elas se perpetuem. 
E existem diversos meios para evitar algo desse tipo nos tempos atuais, dos comitês de ética às mídias sociais.

Afora casos desse tipo, mantenha contato frequente com o seu orientador. Informe-o dos seus passos e avanços. Procure sua assistência e peça sua contribuição. 
Faça o possível para tê-lo como aliado!

Para tanto, acolha as suas sugestões e trabalhe com afinco nelas. 
Pois uma das coisas mais chatas que acontece com um orientador é ler o texto de um aluno, fazer uma série de recomendações e depois de um tempo, quando recebe a suposta “nova versão”, constatar os mesmos equívocos apontados anteriormente. 
Isso desestimula qualquer pessoa...  
 E quanto mais entusiasmado o seu orientador estiver com a sua pesquisa, melhor será a contribuição dele no processo.  
Assim, mostre que o esforço por ele empenhado na sua orientação não está sendo em vão. Que você realmente está se apropriado dos aprendizados e qualificando o seu trabalho a partir disso. 

A relação que você desenvolve com o seu orientador pode facilitar em muito a sua vida acadêmica ou transformá-la em um inferno. 
Como qualquer relacionamento pessoal, os vínculos não se estabelecem do dia para a noite e é preciso cultivá-los. 
É sim um tipo de “casamento”, ainda que temporário e restrito a uma esfera da vida. E como tal, demanda esforço consciente e cuidado constante para que uma relação saudável, respeitosa e profícua se estabeleça. 

Eu fui agraciada na minha trajetória acadêmica com orientadores incríveis. Os caminhos não foram apenas de flores, não se enganem. Tive que batalhar muito para dar conta do recado de lidar com profissionais altamente qualificados e exigentes na mesma medida. 
Convido-os a conhecê-los, na próxima postagem, assim como alguns fatores determinantes para as minhas escolhas de pesquisa.
E também a contar nos comentários qual o estilo do(s) seu(s) orientador(es) e as dificuldades que você já vivenciou nessa relação.

Orientar, como vimos, não é uma atividade que se restringe à verificação de projetos e leitura de manuscritos, mas ao acompanhamento do pós-graduando no seu processo de qualificação acadêmica. 
Desafios surgirão, eventuais desavenças e divergências de opinião também. Mas se a base da relação for saudável, essas questões serão superadas sem dificuldade gerando satisfação mútua e bons frutos. 
Um verdadeiro orientador ajuda seus orientandos a conquistar a chamada autonomia científica. A se tornarem pesquisadores independentes, com as habilidades necessárias para formar seus próprios núcleos de pesquisa. 
Infelizmente, nem todos são assim e as vezes o casamento não dá certo!
 O que fazer nesses casos? 

Escolher um co-orientador mais presente e afinado com o seu estilo pode ser de imensa valia, uma opção viável na maioria dos cursos de pós-graduação. 
Você pode inclusive ter um co-orientador que não seja da sua universidade, ou até mesmo um profissional devidamente qualificado que não seja vinculado a uma universidade. 
Mas o seu orientador tem que aceitar essa opção e o co-orientador deve se afinar com ele - quanto a isso não tem jeito. 

Trocar de orientador no meio do caminho é algo meio mal visto, mas pertinente em alguns casos em que uma separação é inevitável. 
Recorra à coordenação do seu curso de pós para avaliar se essa é uma alternativa possível.

Você também pode contratar uma mentoria acadêmica, como a que oferecemos na Artigos Outliers – ou outros profissionais competentes – que vão te ajudar a alinhar os rumos do seu trabalho, sem fazê-lo por você.

E, por fim, as vezes cabe sim, em alguns casos, desistir!
Não há demérito nenhum nisso. 
Situações de vida, profissionais, pessoais e familiares podem mudar demandando ajustes nos nossos rumos.

Reveja e avalie seus interesses em fazer uma pós-graduação, porque não faltam exemplos de pessoas que se metem nessa seara sem ter noção do trabalho que dá ou com “motivações viciadas” [3]. 
Cursar uma pós-graduação que faça jus a esse nome exige dedicação e um título de mestrado ou doutorado consiste em uma conquista!
Se essa for realmente uma meta na sua vida, cante com Raul e “tente outra vez”, em outro contexto. 
Se não, há zilhões de cursos independentes que podem muito bem lhe qualificar naquilo que interessa sem demandar o comprometimento de produção intelectual que a pós exige. 

O importante é ser feliz e encontrar o próprio caminho!

Érika Fernandes Pinto
22/04/2020

Fontes e Referências:
[1] FERREIRA, FURTADO & SILVEIRA, 2009. Relação orientador-orientando: o conhecimento multiplicador. Acta Cir. Bras., São Paulo, v. 24, n. 3, p. 170-172. (Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-86502009000300001&script=sci_arttext&tlng=pt)

[2] LEITE-FILHO & MARTINS, 2006. Relação orientador-orientando e suas influências na elaboração de Teses e Dissertações. RAE 46: 99-109. (Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rae/v46nspe/v46nspea08.pdf) 

[3] DRECHSEL, 2017. Orientador que não orienta: você não é o único a sofrer desse mal. Gazeta do Povo. (Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/orientador-que-nao-orienta-voce-nao-e-o-unico-a-sofrer-desse-mal-62y0op5vst6efbwpfsma8vnwg/)


[4] SGARBI, 2013. O que esperar e o que não esperar de um orientador(Disponível em: http://pesquisatec.com/new-blog/2013/5/31/o-que-esperar-e-o-que-no-esperar-de-um-orientador)