6. PALAVRAS AOS MEUS ORIENTADORES DE PÓS-GRADUAÇÃO (Parte 1 - Prof. José Geraldo W. Marques)
Orientar um aluno de pós-graduação não é somente se preocupar com a produção de uma boa tese ou dissertação.
É também apoiar a transformação do orientando em um pesquisador independente, capaz de alçar voos solo cada vez mais altos.
Assim gostaria de deixar nesse blog a minha justa homenagem aos bons mestres que encontrei na minha jornada. E que muito contribuíram para que eu me tornasse a profissional que sou.
Desde a graduação em Ciências Biológicas, que fiz na Universidade Federal do Paraná (de 1994 a 1998), encontrei ótimos orientadores. Como o Marcelo Aranha e o Marco Fábio Maia Corrêa, que marcaram uma fase da minha vida que recordo com muito carinho.
Mas vou focar aqui nos orientadores de pós-graduação.
Primeiro no mestrado, que cursei de 1999 a 2001 na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com o professor José Geraldo Wanderley Marques. E depois no doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de 2012 a 2017, com a Dra. Marta de Azevedo Irving.
Pioneiro da Etnobiologia e da Etnoecologia no Brasil, ouvi falar do seu nome a partir de um livro que me chegou às mãos intitulado “Pescando Pescadores”.
Conheci o “Zé Geraldo”, como lhe chamam os íntimos, nos idos da década de 1990, quando estava ainda na graduação.
Pioneiro da Etnobiologia e da Etnoecologia no Brasil, ouvi falar do seu nome a partir de um livro que me chegou às mãos intitulado “Pescando Pescadores”. Uma das primeiras obras publicadas no país sobre um campo de conhecimento até então quase desconhecido.
Essa leitura foi para mim um alento num momento em que estava passando por uma crise acadêmica, desencantada com a Biologia e buscando novos horizontes que me fizessem mais sentido.
Viajei mais de dois mil quilômetros para fazer um curso de uma semana com ele em Ilhéus/BA.
E guardo até hoje os registros manuscritos daquelas aulas que viriam a influenciar profundamente minhas escolhas profissionais.
O Zé usava meios nada convencionais para ensinar.
Suas apresentações, ao invés de slides monótonos cheios de textos, como eu via na faculdade, eram compostas por fotos incríveis e recortes de notícias intrigantes de jornais ou revistas. Que ele usava como base não para explicar conceitos chatos, mas para contar histórias.
Ainda recordo vividamente o fascínio provocado pela mistura das imagens com suas palavras...
Jamais esquecerei dos diversos tons de branco que os Inuit (também conhecidos como Esquimós) reconhecem nas paisagens do Ártico.
Dos cantos que os habitantes tradicionais das Ilhas Maldivas entoam em honra das baleias que entram nas baías. E que, mesmo em meio a muita polêmica, são por eles sacrificadas com o significado de uma oferenda para manter suas famílias.
Das muitas formas que os diferentes povos indígenas têm de olhar as estrelas no céu e nomear as constelações.
Das engraçadíssimas interpretações psicológicas sobre os animais adotados como mascotes por certos times de futebol.
E, é claro, da sua fantástica descoberta do bagre comedor de mariposas na Várzea da Marituba, resultado de sua tese de doutorado defendida na UNICAMP.
Exemplos pitorescos ilustravam instigantes teorizações que eu até então, como boa bióloga, desconhecia – como totemismo social, biofilia cognitiva, a teoria de Gaia e dos campos mórficos.
E para ver se havíamos entendido o recado, propunha dramatizações teatrais.
Em uma delas eu recebi o desafiador papel de representar e me posicionar perante o grupo como uma baleia das Ilhas Maldivas!!!
Além da oratória fantástica, o Zé tem a rara habilidade de transformar a ciência e a pesquisa em uma instigante aventura.
Conta histórias de pesquisadores que se embrenharam nos mais longínquos rincões do planeta, viveram com povos de costumes muito diferentes, passaram por processos iniciáticos secretos e viraram xamãs, mestres vodus ou babalorixás.
Ouvia aquelas histórias completamente fascinada...
Em um mundo caracterizado pelo ceticismo acadêmico, pela separação da razão e da emoção, do sujeito e do objeto, o Zé embasava suas ideias em autores que rompiam com as barreiras paradigmáticas da ciência cartesiana.
E nos propunha abraçar os nossos temas de pesquisa não só com a mente, mas também com a alma e o coração.
Sua linha da Etnoecologia Abrangente envolvia ir para o campo e se sujar na lama dos manguezais, olhar nos olhos dos nossos “interlocutores de pesquisa”, sentar na mesma mesa que eles e se envolver nas suas lutas.
Compartilhar das suas dores, sem, no entanto, se deixar levar pelos amores - “um grave risco para a pesquisa”, como ele sempre advertia.
Voltei desse primeiro encontro com o Zé encantada com a Etno e com a mala cheia de xerox de artigos e capítulos de livros.
Pois naquele tempo não tínhamos as facilidades de baixar pdf da internet. E a única forma de ter acesso a alguns materiais era “assaltando” a biblioteca de um professor.
Voltei também com uma nova sensação de “Descobri!!! É isso o que eu quero fazer na minha vida!”.
Havia recuperado o estímulo para concluir a faculdade de Biologia e a inspiração que precisava para seguir minha jornada.
Em busca de um ninho que acolhesse o meu recém e crescente interesse etnocientífico, assim que completei a graduação me inscrevi no programa de mestrado da UFSCar, uma das poucas universidades no Brasil onde o Zé orientava.
Eram apenas 10 vagas na seleção daquele ano de 1998. Eu estudei tanto para conseguir entrar que fui aprovada em primeiro lugar.
Mas passar nas provas do programa de pós não foi nada comparado à acirrada seleção pela única vaga de orientação do Zé.
Sua promessa, no entanto, era firme: “Quem entra comigo, sai bom!”.
Sua conduta nas aulas contrastava um pouco com o seu estilo de orientação e confesso que demorei um tempinho para me adaptar.
Mas tudo fluiu e esses dois anos de profícua construção da minha dissertação de mestrado se transformaram em uma estima profissional e uma amizade pessoal que perduram até hoje.
O Zé nos instigava a sermos criativos e ousados na pesquisa, mas não sem antes testar nosso lastro acadêmico e pessoal.
Quando nos sentíamos “desorientados” na construção do nosso trabalho, usava frases como “calma, quem já sabe não pesquisa!”.
E, respondia a nossos dilemas e crises existenciais com poesia.
Dizia que a pesquisa era feita de “sangue, suor e lágrimas”, não necessariamente nessa ordem.
E que o desespero em determinados momentos era um ótimo sinal de que o processo estava indo bem.
Severo na orientação, não costumava elogiar seus pupilos diretamente.
E a gente descobria que ele estava gostando do nosso trabalho pelos comentários que ele fazia aos outros.
Sabia encontrar o ponto de equilíbrio do rigor sem rigidez, da disciplina com gentileza e do trabalho árduo com diversão.
Quando tantos pós-graduandos sofrem para encontrar o seu “objeto de pesquisa”, o Zé apresentava uma regra simples do segredo para o sucesso profissional na academia: “encontre aquilo que lhe mantém em estado de apaixonamento contínuo”.
Defendia que qualquer coisa podia virar objeto de investigação. E nos provocava a desbravar paradigmas não apenas científicos, mas também do fazer acadêmico e da integração entre pesquisa e ação.
Falava da importância da intuição no processo científico, como um meio de geração de ideias muito mais rápido do que o raciocínio lógico. E contava histórias fascinantes sobre como ela estava presente nas maiores descobertas importantes da ciência, ainda que poucas vezes relatado.
Propunha o pluralismo teórico e metodológico, da etnografia visual à transcendental.
E a capacidade de fazer ciência a partir de uma multiplicidade de fontes de informações, muitas não usuais na pesquisa acadêmica.
Mas sempre lembrava que, se queríamos transgredir o método na sua cartesianidade, tínhamos que saber o que estávamos fazendo e ser responsáveis.
E que o rigor científico era fundamental.
Gostava de dizer que “somos seres bioculturais”. E estamos na Terra não apenas sobrevivendo, subsistindo e trabalhando, mas também cantando, dançando e amando.
E incluía na ciência a tão raramente considerada “dimensão Pathos” - dos sentimentos e emoções. Facetas que, como advertia o Zé, não se revelam facilmente a qualquer pesquisador, pois é preciso olhar para elas não só com os olhos da mente, mas também com o coração.
Em um contexto onde muitos defendem uma pretensa neutralidade do pesquisador, Zé destacava o compromisso ético que devemos ter não somente no respeito para com os sujeitos dos nossos estudos, mas também pela sensibilidade às suas problemáticas.
Defendia que trabalhar com “gentes” nos imputa uma grande responsabilidade social - de dar voz a culturas silenciadas e invisibilizadas na sociedade moderna por estigmas, preconceitos, marginalidade e opressão.
E que é sim papel do pesquisador se abrir para inserções políticas na luta pelo reconhecimento dos direitos de determinados grupos sociais.
Chamando os pesquisadores à militância e à intervenção, Zé contribuiu para a formação de uma primeira geração de biólogos preocupados com questões socioambientais.
Meu jeito etno de ser
Depois do mestrado entrei na gestão pública e me afastei da academia.
Mas a “Etnoecologia Abrangente de Marques” continuou sendo a base e o norte da minha prática profissional.
Não só como “uma forma de estudar as coisas”, mas como “um jeito de ver o mundo” e “um modo de ser na vida”.
Em 2017, um workshop promovido pelo querido colega Eraldo Costa-Neto reuniu ex-orientandos do Zé para abordarem a “influência marquesiana” nas suas carreiras profissionais.
Uma homenagem em vida à aposentadoria desse fantástico professor, que continua ativo e inspirando muitos.
Uma das principais constatações que tiramos dos relatos compartilhados no evento foi de que não existem ex-orientandos do Zé.
Todos aqueles que cruzaram com ele em algum ponto de suas trajetórias acadêmicas viraram algo tipo “seguidores”.
Parte de um fã clube formado por homens e mulheres cientistas profundamente tocados não só pela sua obra, mas principalmente pelo seu exemplo.
Outra constatação do grupo foi de que a influência marquesiana se estendeu para muito além das nossas carreiras profissionais. Se entrelaçou também à vida pessoal, moldando nossos valores como seres humanos.
Sob orientação, estímulo e estima do Zé, seus orientandos ousaram desbravar uma ampla diversidade de temas de estudo situados em fronteiras epistemológicas, se tornando também referências nas suas áreas.
Quem conhece o Zé sabe que ele é uma figura encantadora, que deixa a sua marca por onde passa.
Uma daquelas pessoas raras que fala sobre os mais diversos assuntos com propriedade e fascínio.
Um misto de sapiência com sabedoria de vida, temperado com humildade e compaixão.
Multifacetado, o professor, pesquisador e intelectual de grande sensibilidade também foi gestor público, é pai de família dedicado, escritor membro da Academia Alagoana de Letras, poeta premiado e Doutor Honoris Causa pela UNEAL.
Difícil dizer o que ele não foi nessa bela trajetória de vida!
Entre todas as suas facetas, entretanto, uma prevalece - a do educador.
Pouco afeto ao produtivismo acadêmico, esse grande pesquisador dificilmente seria considerado um destaque nos moldes atuais de avaliação de impacto com foco em publicações científicas.
Deixou suas marcas mais nas salas de aula do que nos escritos acadêmicos.
Sua excelência nesse campo se reflete no conjunto da sua vasta obra nascida das várzeas, da lama, da terra, dos rios e mares, das ruas e feiras.
E se propaga principalmente através dos seus alunos, os principais porta-vozes do seu legado.
Com o Zé Geraldo aprendi que a pesquisa científica, além de instigante, também pode ser bela, humana, poética, encantadora, mágica e divertida.
Agradeço imensamente pelos aprendizados e vínculos mantidos, sem importar o tempo ou a distância.
É uma grande honra para mim ter feito e continuar fazendo parte do seu time.
Érika Fernandes Pinto
Brasília, 18/07/2020
Continua no próximo post...

