7. ALGUMAS PALAVRAS AOS MEUS ORIENTADORES DE PÓS-GRADUAÇÃO (Parte 2 - Prof. Marta Irving)


Quatorze anos depois do mestrado eu me aventurei a entrar no doutorado, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que cursei de 2012 a 2017, tendo professora Marta de Azevedo Irving como orientadora. 
Precursora da Psicossociologia de Comunidades e da Ecologia Social, assim como o Zé Geraldo, a Marta também foi pioneira em um campo de conhecimento de vanguarda e contra hegemônico. 
Ambos tiveram uma formação híbrida entre ciências naturais e sociais e construíram trajetórias incomuns no meio científico, buscando não a especialização em um determinado nicho, mas a complexidade do olhar holístico para as múltiplas facetas da realidade. 
Inspirados por “autores subversivos” como Edgar Morin, enfrentaram diversos desafios e os riscos inerentes a quem ousa seguir um caminho que desafia o mainstream
E foram transgressores sem ser rebeldesalgo que apenas muita labuta e a maturidade é capaz de trazer.
Em meio a um universo recortado por especialidades, tanto a Etnoecologia como a Psicossociologia são campos de conhecimento interdisciplinares na sua essência. 
Tem como característica as “rupturas paradigmáticas” e propõe uma perspectiva holística de entendimento das relações humanas com o ambiente.
E como tal, enfrentaram muitas dificuldades para encontrar o seu lugar no meio científico cartesiano, positivista e reducionista. Algo conquistado apenas com a persistência de pesquisadores exemplares como o Zé Geraldo e a Marta.

Esses renomados profissionais têm perfis, trajetórias e estilos de orientação bem diferenciados. Mas se assemelham em alguns quesitos – seu grau de exigência para com os orientandos é do mesmo nível da sua competência e excelência profissional. 
Com a Marta, minha trajetória foi um pouco diferente do Zé. Não tivemos uma “paixão à primeira vista” e nossa relação passou por diversos percalços e uma verdadeira metamorfose ao longo do doutorado. 
Mas a cada dia percebo o grande diferencial que tê-la como orientadora proporcionou na minha trajetória. 

Marta navegou por muitos mares e ancorou em vários portos, em diversos continentes. Até se estabelecer no Rio de Janeiro e se tornar professora titular da UFRJ.
Possui um currículo que em muito ultrapassaria a minha capacidade de escrita aqui no blog. Entre outras coisas, coordena o GAPIS – Grupo de Pesquisa em Governança, Biodiversidade, Áreas Protegidas e Inclusão Social, ao qual estive vinculada durante o doutorado e que tão relevante também foi nesse processo. 

Turma do GAPIS

Para quem atua na área socioambiental, impossível não ter ouvido falar dela. 
Foi uma das primeiras pesquisadoras a chamar a atenção, no Brasil, para a necessidade de equilibrar as políticas de conservação da natureza e os direitos e necessidades das comunidades locais. 
Ousou enfrentar a polêmica da presença de populações tradicionais em unidades de conservação de proteção integral. 
E fundou um dos principais lócus de debate dessas problemáticas, o SAPIS - Simpósio Brasileiro sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social, já na sua décima edição. 
Criticava não só a forma de implementação segmentadas das políticas públicas, como a ausência da academia em certos debates. 
E levou a discussão sobre a sustentabilidade para dentro da Psicologia. 

Mesmo em meio às suas inúmeras tarefas de ensino e pesquisa, jamais negligenciou a extensão, que defende ser um compromisso da universidade para com a sociedade. 
Da “ciência com consciência” de Morin, às “três ecologias” de Gattari e “o naturalismo subversivo” de Moscovici, falava das ciências naturais diante dos conflitos sociais e dos conflitos sociais à luz da problemática ambiental.
Sempre defendeu a pesquisa engajada, com um olhar voltado à construção de propostas concretas para a reinvenção dos modos de fazer ciência e políticas públicas, dando-lhes novas cores e formas. 
Dizia estar cansada de ler “mais do mesmo” e instigava seus orientandos a ousar e lhe surpreender. A buscar os significados por trás dos dados e olhar para a subjetividade das relações estabelecidas. 
Trazia conceitos diferentes como o religare e as teorias antiessencialistas da natureza, nos convidando à reflexão crítica e à construção de novos paradigmas.

Ainda que no começo nossa relação possa ter sido meio aterrorizante, como contei no primeiro post desse blog, conforme fui compreendendo o processo acadêmico como um continuum de escrita e reescrita, comecei a dar muito valor as suas revisões. 
Ao ponto de, nas nossas últimas interlocuções enquanto orientadora-orientanda, ela me devolver meu texto dizendo “Tá do jeitinho que você gosta, todo rabiscado!”


Com o tempo percebi o quão relevante para a minha formação foi ter sido agraciada com a supervisão de uma orientadora exigente. Que me instigou a superar meus limites e ousar ir muito mais longe do que eu teria ido sem as suas provocações. 
E que ajudou sobremaneira a melhorar a qualidade da minha escrita e o meu desempenho como pesquisadora. 

Na fase final do meu doutorado, assumi junto ao meu grupo de pesquisa a função de revisar os textos do pessoal antes de chegarem nas mãos da Marta. 
Ao ler o primeiro trabalho, sabe qual foi o comentário que imediatamente me veio à mente? O "Pirou!".
Comecei a compreender melhor a dimensão da árdua tarefa da Marta. 
E imaginá-la tendo que passar por isso a cada novo ciclo de orientação durante décadas aflorou tanto a minha compaixão que passei a me referir a ela como "Santa Marta". 
Rigorosa, mas com um coração enorme, minha estima foi crescendo diante do seu exemplo de força e coragem ao enfrentar as agruras da vida. 
Pela firmeza com que provoca seus orientandos a serem o melhor que podem ser. 
E pelo carinho com que nos apoia nos momentos em que enfrentamos nossas maiores batalhas. 
Também descobri que contar com alguém que faça um trabalho tão minucioso de revisão dos nossos textos representa um grande privilégio, porque isso é algo raro de encontrar hoje em dia. 
Por isso, se você esbarrar com um desses professores "linha dura" na sua jornada, jogue as mãos para o céu e agradeça. 
Infelizmente, já não se fazem mais Martas como antigamente... 

Ela dizia que a minha pesquisa de doutorado era de “altíssimo risco”, pois tratava de muitos temas tabu na academia. 
E que tinha tudo para dar errado. 
Mas felizmente, parece que deu certo! Bastante certo!
Seu pulso firme me ajudou a penetrar nos mistérios do meu tema de pesquisa sem me perder nele. 
E trazer para o texto acadêmico os aprendizados e as aventuras vivenciadas no campo do sagrado com consistência científica. 
Marta foi, sem dúvida, a principal responsável pelo meu sucesso acadêmico. 
Espero que esse trabalho possa representar uma singela retribuição pela sua dedicação à minha formação e a de todos os orientandos que passam pelo seu caminho.

Como prestar uma justa homenagem a esses dois grandes professores e amigos que tanta importância tiveram na minha trajetória? 
Um texto é pouco para expressar uma gratidão que não cabe em palavras...

É por meio de seus orientandos que um pesquisador cria o seu legado e planta as suas sementes. 
E dizem um bom mestre não é aquele que tem mais seguidores, e sim aquele que forma mais mestres como ele. 

Queridos Zé e Marta, espero conseguir mostrar o valor de vocês na minha vida não com palavras, e sim nos meus atos cotidiano, germinando suas sementes. 
E gerando novos frutos capazes de despertar mais mentes e corações dispostos a se deixar levar por suas asas até onde a ousadia lhes permitir voar. 

Feliz quem tem vocês na sua trajetória...

Assim, sem me importar com o risco de parecer piegas, aos meus queridos mestres, com carinho, dedico!

(E)ternamente grata

Érika Fernandes Pinto
Brasília, 18/07/2020.